Basta alguém lembrar de uma cena para a conversa na sala mudar de rumo: quem assistiu conta como era, quem não assistiu quer saber como termina. As novelas antigas têm esse jeito de atravessar o tempo, e a pesquisa brasileira sobre telenovela ajuda a entender por que elas continuam encontrando público entre quem não as viu quando foram ao ar.

O QUE VALE LEVAR DAQUI

Estudos brasileiros ajudam a entender por que as novelas antigas seguem atraindo público: a novela faz parte de um repertório comum que junta pessoas de gerações diferentes, ela é tão vista quanto comentada, e a reprise não serve só para relembrar. Numa pesquisa sobre reprises, parte do público via a novela pela primeira vez, e muita gente passou a enxergar a trama com outros olhos.

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Uma história que começou na TV diária

A telenovela com capítulos todos os dias tem data de nascimento no Brasil. Estudos acadêmicos registram que a primeira novela diária foi 2-5499 Ocupado, exibida em 1963 pela extinta TV Excelsior. Em 1968, Beto Rockfeller, da TV Tupi, é apontada como o início de uma fase de “brasilidade” na teledramaturgia, com uma proximidade com o cotidiano de quem assistia.

O formato que se consolidou depois é o de uma narrativa longa: segundo a pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da USP, uma telenovela costuma terminar por volta de 200 capítulos, exibidos seis dias por semana, com duração média de oito meses. É muito tempo de convivência com os mesmos personagens, e isso ajuda a explicar por que eles ficam na memória de quem acompanhou.

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Um repertório que junta gerações

Para Lopes, a televisão tem no Brasil uma capacidade peculiar de criar e alimentar um “repertório comum”, por meio do qual pessoas de classes sociais, gerações, sexo, raça e regiões diferentes se posicionam. A telenovela é, segundo ela, talvez o elemento que melhor caracteriza uma “narrativa da nação”.

Na prática, isso quer dizer que uma novela antiga raramente chega sozinha. Ela vem com a história de quem assistiu na primeira exibição, com as referências que circulam em casa e com a curiosidade de quem só ouviu falar. Para quem é mais novo, conhecer a novela é também entender do que os mais velhos estão falando.

“A novela é tão vista quanto falada.” (Maria Immacolata Vassallo de Lopes, USP)

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A conversa faz parte da novela

A mesma pesquisadora observa que a novela começa a ser comentada durante o próprio ato de assistir, e que se conversa sobre ela em casa, com a família, com vizinhos, com amigos e no trabalho. O sentido da história, nessa leitura, nasce tanto do que aparece na tela quanto da conversa das pessoas sobre ela.

É por isso que ver uma novela em família funciona de um jeito diferente de ver sozinho. Quem já conhece a trama tem vontade de comentar; quem assiste pela primeira vez quer descobrir sem ninguém contar o final. Combinar esse acordo antes do capítulo começar evita que a experiência de um estrague a do outro. Se a ideia é transformar a noite em sessão, as dicas de cinema em casa servem também para a novela.

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Por que as novelas antigas ganham quem nunca as viu

Reprisar novelas não é novidade: um estudo publicado na revista Rumores, da USP, registra que uma emissora de TV aberta exibe novelas antigas à tarde desde 1969. O mesmo trabalho, feito por pesquisadoras e pesquisadores da UFRGS e da PUCRS, ouviu 265 pessoas por questionário on-line durante a pandemia de covid-19, quando emissoras trocaram as novelas inéditas por reprises.

Os números valem só para esse grupo, mas ajudam a enxergar o fenômeno. Das pessoas ouvidas, 65% estavam acompanhando ou já tinham visto alguma reprise. Entre elas, 29% disseram não ter visto a novela quando ela foi ao ar pela primeira vez: a reprise era a estreia. Entre os motivos para assistir de novo, 42,1% citaram rever personagens cativantes, 41,3% a nostalgia e 29,8% a vontade de rever a trama “com outros olhos” (cada pessoa podia marcar mais de um motivo).

Esse último ponto é o mais interessante. Os autores concluem que ver uma reprise não se resume a relembrar: novos sentidos aparecem, e a percepção sobre temas sociais tratados na história pode mudar. Críticas que não apareciam com a mesma ênfase na exibição original ganharam espaço na reprise, o que os autores atribuem à mudança de contexto desde a exibição original. Gostar de uma novela antiga e olhar criticamente para ela são coisas que podem andar juntas.

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A novela como retrato de uma época

Lopes descreve a telenovela brasileira como um espaço público de debate de temas da modernidade no país. Os autores do estudo sobre reprises lembram que títulos antigos reprisados na pandemia revelaram vários aspectos da cultura brasileira, da moda à música, e também questões políticas do tempo em que foram feitos. Para quem é mais novo, isso vira uma janela para entender como os pais e os avós viviam; para quem viu na época, é um reencontro com a própria história.

Esse interesse pelo que a ficção guarda do passado não é exclusivo das novelas. Quem gosta de conhecer o Brasil pela tela pode seguir pelo cinema nacional, que também ajuda a puxar conversa entre gerações.

ANTES DO PRÓXIMO PLAY

Para rever novelas antigas em família

  • Combinem antes se vale ou não contar o que acontece depois.
  • Deixem quem já assistiu contar como era ver a novela na época.
  • Conversem sobre o que mudou desde então, sem precisar concordar.
  • Escolham um ritmo de capítulos que caiba na rotina de todos.

Para consultar

Redação HELP TV PLAYER

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