O jeito de falar costuma ser a primeira pista de onde vem um personagem. Os sotaques na novela ajudam a situar a história no mapa e aproximam o público de regiões que ele talvez não conheça, mas também podem virar caricatura. A pesquisa brasileira sobre língua e televisão tem olhado para isso com atenção.

O QUE VALE LEVAR DAQUI

O português do Brasil tem muitos falares, e mapear essas diferenças é o objetivo do Atlas Linguístico do Brasil. A novela leva regiões para a sala do país inteiro há mais de cinco décadas, mas estudos mostram que os sotaques na novela nem sempre são fiéis: às vezes padronizam uma região inteira ou exageram traços até a caricatura. Ouvir com atenção ajuda a perceber a diferença.

01

Um país de muitos falares

O Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) começou em 1996, a partir de um seminário na Universidade Federal da Bahia, segundo artigo das pesquisadoras Suzana Alice Cardoso e Jacyra Andrade Mota, da UFBA. O plano previa 1.100 entrevistas em 250 localidades, de norte a sul do país. Entre os objetivos está descrever as diferenças regionais do português falado no Brasil, na pronúncia, na gramática, no vocabulário e na entonação, e mostrá-las em mapas linguísticos.

Um exemplo conhecido é o “R caipira”, a pronúncia retroflexa do R no fim da sílaba. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Linguística Aplicada cita dados do ALiB que registram essa pronúncia no interior de São Paulo, em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e no oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Ou seja, um mesmo traço atravessa vários estados, e um mesmo estado pode ter mais de um jeito de falar.

02

Quando as regiões chegaram à novela

A virada para o cotidiano brasileiro, a partir de Beto Rockfeller (1968), levou à tela a linguagem coloquial, como descreve a pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da USP. Ela observa que as tramas passaram a ser movidas por oposições como a de localidades rurais e urbanas, “arcaicas” e “modernas”.

As regiões vieram junto. Segundo um estudo publicado na revista Temática, da UFPB, a primeira novela ambientada no Nordeste foi Verão Vermelho, de Dias Gomes, que se passava na Bahia. Do mesmo autor, O Bem-Amado (1973) se passava numa cidade fictícia, mas representava costumes da Bahia pelo litoral baiano, por personagens caricatos e por seus sotaques. O estudo cita a avaliação de que o enfoque regional na teledramaturgia “não é dominante, mas é expressivo”.

Nos anos 1990, conta a pesquisadora Soraia Rodrigues Costa, Pantanal, da TV Manchete, foi ambientada no Pantanal, com predomínio de cenas externas no mundo rural, e outras novelas de temática rural vieram em seguida.

03

Sotaques na novela: quando representam e quando caricaturam

O mesmo estudo da Temática faz uma ressalva: os sotaques das novelas nem sempre são fiéis à região retratada, e novelas passadas em lugares diferentes chegam a usar sotaques muito parecidos. Os autores citam a crítica de que essas produções costumam tratar o Nordeste como “um bloco linguístico único”, ignorando a variedade da região.

Um artigo publicado na revista Sociodialeto analisou a fala de personagens piauienses em Cheias de Charme (2012). Partindo da observação de que as novelas padronizam o sotaque nordestino, a autora encontrou poucas palavras do vocabulário piauiense catalogado numa enciclopédia do “piauiês” e concluiu que não houve preparação linguística dos atores para esses papéis.

O estudo da Revista Brasileira de Linguística Aplicada, de uma pesquisadora da Universidade Federal de Alagoas, comparou duas produções. Em O Sétimo Guardião (2018), uma personagem do interior exagerava o R retroflexo e alongava vogais, o que a autora classifica como caricatura. Em Verdades Secretas (2015), a fala de uma personagem vinda do interior foi considerada fiel. Para a autora, a representação caricata pode reforçar o preconceito linguístico, enquanto a fiel legitima o falar como marca de identidade.

“Representar as identidades de forma adequada deve ser uma preocupação para qualquer tipo de mídia.” (Revista Brasileira de Linguística Aplicada, 2022)

04

Como ouvir os sotaques com mais atenção

Dá para transformar o assunto em conversa na sala. Quando a novela se passar numa região que alguém da família conhece bem, vale perguntar se o jeito de falar soa parecido com o de lá. Outra boa pergunta é se o sotaque aparece em personagens de todo tipo ou só nos cômicos: o estudo da Temática aponta que personagens nordestinos muitas vezes ficaram com papéis secundários e de alívio cômico.

O cinema também retratou regiões de jeitos muito diferentes ao longo das décadas, e o roteiro de cinema nacional é um bom ponto de partida. Rever novelas antigas também permite comparar como os sotaques eram tratados antes e hoje.

ANTES DO PRÓXIMO PLAY

Para ouvir a novela com outros ouvidos

  • Repare se a novela diferencia os estados ou trata uma região como se falasse igual.
  • Veja se o sotaque aparece em personagens sérios ou só nos engraçados.
  • Pergunte a quem é da região se reconhece aquele jeito de falar.
  • Lembre que não existe sotaque certo ou errado: existe jeito de falar de cada lugar.

Para consultar

Redação HELP TV PLAYER

Entretenimento e tecnologia para a sua tela. Curiosidade para descobrir histórias e clareza para aproveitar melhor.

Conheça o portal ↗

Algo neste conteúdo precisa de revisão?

Sugerir uma correção ↗