Não existe uma lista oficial de novelas clássicas. Ainda assim, algumas histórias continuam rendendo conversa muito tempo depois do último capítulo, e outras somem da memória logo que acabam. A pesquisa brasileira sobre telenovela não define um cânone, mas ajuda a enxergar o que as histórias que ficam costumam ter em comum.
Não há lista oficial de novelas clássicas, mas a pesquisa dá pistas: as histórias que o público guarda costumam dialogar com a realidade do país, trazem uma novidade que vira assunto fora da tela e deixam personagens que as pessoas querem rever. Quando voltam em reprise, elas ainda ganham leituras novas.
As histórias que ficam na memória
A pesquisadora Silvia Helena Simões Borelli, da PUC-SP, conta que, a partir dos anos 1970, muitas novelas passaram a dar ênfase a imagens da realidade brasileira, com um tom de debate sobre as condições históricas e sociais vividas pelos personagens. Segundo ela, muitos espectadores reconhecem nesse diálogo com o país um critério de distinção e apontam essas como as novelas que permanecem na memória, catalogadas no rol “das grandes histórias”, “daquelas que ficam”.
Entre as mais citadas, Borelli lista títulos como Roque Santeiro (1985-86), Roda de fogo (1986-87), Tieta (1989-90) e Renascer (1993). A lista é de um artigo publicado em 2001 e não é um ranking, mas mostra um padrão: a lembrança vem junto com a sensação de que a novela falava de alguma coisa real.
Uma novidade que vira assunto
A pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da USP, descreve uma convenção adotada desde o fim dos anos 1960: cada novela deveria trazer uma “novidade”, um assunto que a diferenciasse das anteriores e fosse capaz de provocar interesse, comentário e debate, inclusive em outras mídias, além do consumo de livros, discos e roupas ligados a ela.
Quando isso funciona, a novela sai da tela. Lopes registra que gírias e maneirismos de personagens são incorporados rapidamente à linguagem do dia a dia, que nomes de personagens entram em moda e batizam crianças, que padarias e lojas exibem títulos de novelas na fachada e que nomes de personagens, principalmente os vilões, viram adjetivo para descrever pessoas. Uma história que deixa esse tipo de rastro tem mais chance de continuar sendo lembrada.
Quando a ficção conversa com o país
Algumas novelas marcam época porque o assunto transborda para a vida pública. Lopes cita o caso de Mulheres Apaixonadas (2003): ao aprovar o Estatuto do Idoso, o Senado reconheceu a importância da novela, em que uma personagem tratava com hostilidade os avós. A pesquisadora também lembra que O Espigão, de 1974, já apresentava uma campanha pelo meio ambiente, antes de esse tipo de ação ganhar nome nas novelas.
A comoção também pode ser um sinal. A pesquisadora Soraia Rodrigues Costa relata que o encerramento de O direito de nascer, um dos primeiros grandes sucessos da novela diária, virou festa com público no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 13 de agosto de 1965, e no Maracanãzinho, no Rio, no dia seguinte.
Por que as novelas clássicas voltam
Um estudo publicado na revista Rumores, da USP, feito por pesquisadores da UFRGS e da PUCRS com 265 pessoas durante a pandemia, perguntou, entre outras coisas, por que quem via novelas reprisadas assistia a elas. Nessa pergunta, 42,1% citaram rever personagens cativantes, 41,3% a nostalgia e 27,3% a vontade de lembrar como determinado tema foi tratado na época da exibição (era possível marcar mais de um motivo).
O mesmo estudo mostra que rever não é só repetir: muita gente passou a enxergar a trama de outro jeito, e críticas que não apareciam com a mesma força na exibição original ganharam espaço. Um clássico, nesse sentido, é também uma história que aguenta ser revista com olhos novos. O texto sobre novelas antigas aprofunda essa conversa entre gerações, e o roteiro de cinema nacional mostra como os filmes brasileiros também ganharam suas referências de época.
Perguntas para descobrir os clássicos da sua casa
- Qual novela ainda aparece nas conversas da família?
- Que personagem ou bordão alguém ainda imita?
- Sobre qual assunto do país aquela história fazia pensar?
- O que muda quando vocês reveem a mesma novela hoje?
Para consultar
- Telenovelas brasileiras: balanços e perspectivas, Silvia Helena Simões Borelli (São Paulo em Perspectiva, SciELO) ↗
- Telenovela como recurso comunicativo, Maria Immacolata Vassallo de Lopes (MATRIZes, USP) ↗
- Telenovela: o gênero de maior sucesso da televisão brasileira, Soraia Rodrigues Costa (Portcom, Intercom) ↗
- Telenovela e memória: ‘Vale a pena ver de novo?’, reprises em tempo de pandemia (Rumores, USP) ↗
Redação HELP TV PLAYER
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