Às vezes bastam os primeiros acordes para alguém na sala dizer o nome da novela. As trilhas sonoras de novela guardam uma época inteira em poucos segundos, e a pesquisa brasileira ajuda a entender como isso foi construído: da abertura que se repete a cada capítulo aos discos que levavam as músicas para dentro de casa.
Um estudo com 248 aberturas de novela exibidas entre 1970 e 2012 mostra que a canção virou a marca desse momento, enquanto a música instrumental quase desapareceu. Os discos com as trilhas sonoras de novela, com repertório nacional e internacional, também tiveram papel no mercado musical. Reouvir essas músicas é um jeito simples de puxar conversa entre gerações.
A abertura que se repete todo dia
Pesquisadores da Unicamp analisaram as 248 vinhetas de abertura das novelas de uma grande emissora de TV aberta, exibidas de 1970 a 2012. Eles lembram que, de todas as músicas de uma novela, a da abertura tem peso diferente, porque é a que vai ser repetida em todos os capítulos. Para os autores, ela é o único elemento que acompanha a novela do começo ao fim sem grandes alterações.
O estudo encontrou quatro jeitos de uma abertura conversar com a história: mostrar os personagens principais, mostrar o lugar onde a trama acontece, situar a época ou destacar o tema e o clima da narrativa. Na maioria das aberturas, a música ajuda a dizer ao público que tipo de novela vem pela frente.
“A música é fundamental para o sucesso de uma abertura. Sem uma boa música raramente uma abertura funciona.” (Daniel Filho, um dos idealizadores da teledramaturgia da emissora, citado no estudo da Unicamp)
Da música instrumental à canção
Os números do levantamento mostram uma mudança clara. Na década de 1970, das 50 aberturas analisadas, 31 tinham canção, 18 usavam música instrumental e uma trocava a música por efeitos sonoros. Nos anos 1980, foram 52 canções em 57 aberturas. Entre as novelas da década de 2010 estudadas (o levantamento vai até 2012), só duas tinham música instrumental nos créditos iniciais.
Os autores apontam motivos para essa preferência. A letra deixa a mensagem mais direta, o que ajuda a entender a abertura em pouco tempo. E o som da televisão brasileira tem a função de informar sozinho: o artigo registra que muita gente acompanha a TV apenas ouvindo, sem olhar para a tela.
A duração também encolheu. As aberturas dos anos 1970 tinham, em média, 80 segundos; a partir dos anos 1980, a média caiu para 67 segundos, o que os pesquisadores associam ao gerador de caracteres para os créditos e à computação gráfica.
Há até casos em que a música entra no roteiro. O estudo reproduz o relato de Daniel Filho sobre Irmãos Coragem (1970): a abertura ficou só instrumental nos 12 primeiros capítulos, e a letra cantada por Jair Rodrigues passou a tocar a partir de uma virada da história, como sinal para o público de que algo tinha mudado.
Trilhas sonoras de novela que marcaram época
Alguns exemplos citados pelas pesquisas mostram como a música ficou colada à memória de cada novela:
- Gabriela (1975). A abertura trazia “Modinha para Gabriela”, de Dorival Caymmi, na voz de Gal Costa. Segundo o estudo, a canção era praticamente o único elo da abertura com a protagonista.
- Estúpido Cupido (1976). A novela se passava nos anos 1960, e a canção que dava nome a ela, na voz de Celly Campello, tinha tanta força que a cantora, afastada desde 1962, voltou às paradas de sucesso.
- Dancin’ Days (1978). A música de Nelson Motta e Ruban, gravada pelas Frenéticas, acompanhava imagens de dançarinos de discoteca e ajudava a situar o ambiente e a época da história.
- Rainha da Sucata (1990). Um artigo publicado na revista Logos, da UERJ, conta que “Me chama que eu vou”, com Sidney Magal, embalava uma abertura em que bailarinos ensinavam, todos os dias, passos de lambada.
- Mulheres Apaixonadas (2003). A abertura usava “Pela luz dos olhos meus”, de Vinicius de Moraes, com Tom Jobim e Miúcha, para situar o público no tema da novela: o amor e as relações amorosas.
Se a música puxar a lembrança de uma história inteira, as dicas sobre novelas antigas ajudam a transformar essa memória em conversa com quem não viu na época.
Os discos que levavam a novela para casa
A trilha não ficava só na TV. O mesmo artigo da Logos relata que o braço fonográfico da mesma emissora nasceu apoiado no bom resultado comercial dos primeiros discos de trilhas de suas novelas, lançados numa parceria de um ano com outra gravadora. O mesmo texto cita um levantamento de mais de 600 faixas gravadas em 48 LPs e 10 compactos lançados entre 1969 e 1978.
O artigo da Unicamp explica que a venda desses discos fazia parte do planejamento comercial, e por isso a escolha das canções ficava no limite entre a função dramática e o potencial de mercado. Os discos costumavam se dividir em canções nacionais e internacionais; um estudo publicado na revista Ação Midiática, da UFPR, descreve esse disco como uma compilação das músicas usadas nos capítulos, com diferentes finalidades.
O autor do artigo da Logos conclui que, nos anos 1980 e 1990, as trilhas seguiram privilegiando artistas mais prestigiados na hierarquia cultural brasileira, e lembra o peso da exposição diária: a canção chegava a muita gente ligada a situações dramáticas e a personagens. Para quem assistia, isso explica por que uma música ainda traz de volta uma cena inteira. Para montar uma sessão com som caprichado, vale conferir o guia de cinema em casa.
Para reviver as trilhas em família
- Toque uma abertura e deixe a turma adivinhar a novela.
- Peça a quem assistiu na época que conte que cena a música lembra.
- Compare aberturas de décadas diferentes: canção, imagens e duração.
- Combine antes de contar o que acontece na história, para não estragar a surpresa de ninguém.
Para consultar
- A música nas aberturas das telenovelas (1970 a 2012): funções e dramaturgia musical (Opus, ANPPOM; autores da Unicamp) ↗
- Trilhas de telenovelas globais e o mercado musical nos anos 1980 e 1990 (Logos, UERJ) ↗
- A música pop internacional na trilha sonora de telenovela no século XXI (Ação Midiática, UFPR) ↗
Redação HELP TV PLAYER
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