Assistir a novelas em família, com avós e netos no mesmo sofá, junta pessoas que chegam à história com experiências bem diferentes. Quem já viu muita novela traz memória e repertório; quem está começando chega com curiosidade e outras perguntas. Escolher bem o que ver é o primeiro passo para que a sessão funcione para todo mundo.
Novelas em família funcionam melhor quando a escolha é conversada. Uma pesquisa citada pela UFSM aponta a TV como primeira opção de lazer entre idosos brasileiros, e estudos mostram que a televisão cria um repertório comum entre grupos diferentes, inclusive gerações. Para escolher, confira a classificação indicativa, leve em conta o tom de cada faixa de horário, combine a regra de spoiler e use a história para puxar conversa.
Por que a novela junta gerações
A pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da USP, observa que a televisão no Brasil cria e alimenta um “repertório comum”, pelo qual pessoas de classes sociais, gerações, sexo, raça e regiões diferentes se posicionam e se reconhecem. Ela lembra também que a telenovela já foi definida como uma narrativa por excelência sobre a família, e que as tramas costumam ser movidas por oposições, entre elas as que existem entre gerações.
Isso ajuda a entender por que a novela rende conversa entre avós e netos. A mesma história pode ser lida de jeitos diferentes por quem viveu a época retratada e por quem está conhecendo aquele Brasil pela primeira vez, e a diferença de leitura é parte da graça.
O que a pesquisa diz sobre os avós diante da TV
Uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), de 2011, reúne alguns dados sobre o tema. Citando uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo publicada em 2007, a autora, Laura Hastenpflug Wottrich, registra que assistir à televisão aparecia como a primeira opção de lazer entre os idosos brasileiros, com 93% da preferência. Ela cita ainda o anuário de 2009 do Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva: em duas novelas analisadas no anuário, o público com 50 anos ou mais foi o principal, com 29,7% e 30,7% da audiência, contra 10,2% do público de 18 a 24 anos.
A pesquisa acompanhou seis mulheres de 63 a 76 anos, de classes populares, moradoras de Santa Maria (RS), e concluiu que a novela tem participação importante na forma como elas pensam e vivem a própria velhice. Um detalhe do trabalho mostra que juntar gerações pede escolha: segundo a pesquisadora, uma das entrevistadas assistia com os netos mais a filmes, desenhos e animações, e preferia ver TV com o marido, porque não gostava da algazarra das crianças.
Como escolher novelas em família
A classificação indicativa é o ponto de partida quando há crianças e adolescentes na sala. Segundo o Guia Prático do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ela informa pais e responsáveis sobre a idade não recomendada para cada conteúdo, e não deve ser confundida com censura. As obras são analisadas por eixos temáticos como violência, drogas e sexo e nudez, e recebem uma indicação que vai de livre até não recomendado para menores de 18 anos, passando pelas faixas de 6, 10, 12, 14 e 16 anos.
O horário original também dá pistas sobre o tom. Na descrição de Lopes, publicada em 2009 e referente à grade da TV Globo, a novela das seis costuma ter temática histórica ou romântica, a das sete tem tom jovem e de comédia, e a do horário nobre trata de temas sociais e adultos. Não é regra fixa, mas ajuda a imaginar o que esperar.
Para quem quer alternar com filmes, os textos sobre aventura em família e filmes de fé para ver em família seguem o mesmo cuidado de escolha.
Assuntos que a novela ajuda a conversar
A novela também pode abrir conversas difíceis. Lopes relata que, ao aprovar o Estatuto do Idoso, o Senado reconheceu a importância de Mulheres Apaixonadas (2003), novela em que uma personagem tratava com hostilidade os avós. É um exemplo de como uma história pode levar a família a falar sobre respeito aos mais velhos.
Rever juntos uma novela de outra época também rende. Um estudo publicado na revista Rumores, da USP, com 265 respostas a um questionário on-line, mostrou que a maioria de quem viu reprises na pandemia mudou, total ou parcialmente, a percepção sobre temas e personagens da trama. Os avós podem contar como era assistir naquele tempo, e os netos podem dizer o que estranham hoje. O texto sobre novelas antigas aprofunda essa conversa.
Para a sessão de novela com avós e netos
- Confiram juntos a classificação indicativa antes de escolher.
- Combinem se quem já viu pode ou não contar o que acontece.
- Escolham um horário e um número de capítulos que caibam para todos.
- Depois do capítulo, perguntem o que cada um achou, sem buscar resposta certa.
Para consultar
- Telenovela como recurso comunicativo, Maria Immacolata Vassallo de Lopes (MATRIZes, USP) ↗
- Envelhecer com Passione: a telenovela na vida de idosas das classes populares, Laura Hastenpflug Wottrich (UFSM) ↗
- Ministério da Justiça e Segurança Pública: Guia Prático de Classificação Indicativa, 5ª edição (2025) ↗
- Telenovela e memória: ‘Vale a pena ver de novo?’, reprises em tempo de pandemia (Rumores, USP) ↗
Redação HELP TV PLAYER
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