Quem acompanha novela costuma reconhecer cada faixa de horário pelo tom, às vezes antes de conhecer a história. A novela das seis tem fama de romântica e de gostar de outras épocas, e a pesquisa brasileira sobre telenovela ajuda a entender de onde vem esse jeito e por que ele se mantém.
A novela das seis nasceu dentro do “horário da novela” criado nos anos 1970, com uma faixa para cada tipo de história. Estudos descrevem a das seis como de temática geralmente histórica ou romântica, com espaço para drama e fantasia. Em 1975, a faixa passou a receber adaptações de clássicos da literatura brasileira, uma marca que ajuda a explicar esse perfil.
Um horário com jeito próprio
A pesquisadora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, da USP, explica que o “horário da novela” foi criado pela TV Globo nos anos 1970, quando a emissora passou a produzir três novelas diárias. A faixa ia das 17h30 às 22h, e sincronizar o horário de cada novela acabou criando hábitos de assistir próprios de cada uma.
Na descrição de Lopes, publicada em 2009, cada faixa tinha um perfil: a novela das seis, de temática geralmente histórica ou romântica; a das sete, de tema atual, em tom jovem e de comédia; e a do horário nobre, a antiga novela das oito (depois, das nove), de tema social e adulto. Entre a das seis e a das sete ia ao ar um telejornal regional. Ou seja, a novela das seis não é só um horário: é um tipo de história que o público aprendeu a esperar.
De onde vem o gosto pela literatura
O perfil da faixa tem história. A pesquisadora Soraia Rodrigues Costa relata que, nos anos 1970, os horários de menor audiência (18h e 22h) receberam novelas com temas educativos, e que as das 18h eram voltadas ao público infanto-juvenil. Depois, citando os pesquisadores Ramos e Borelli, ela registra que o horário das 18h foi redimensionado para adaptações literárias, como Helena, de Machado de Assis, e Senhora, de José de Alencar.
Um trabalho apresentado em congresso da Intercom situa essa virada em 1975, quando o horário das 18h passou a ser reservado a clássicos da literatura brasileira, com títulos como Senhora, A Moreninha, Escrava Isaura e Cabocla. A pesquisadora Esther Hamburger acrescenta o contexto: essas novelas, no início especializadas em adaptar clássicos da literatura nacional, talvez representem, ao lado do telejornalismo, o que o governo militar via como conteúdo ideal da sua política de integração nacional pela TV.
Esse diálogo com a literatura combina com a temática histórica que Lopes aponta na faixa. Quem se interessa por ver o passado do país na tela encontra caminho parecido no cinema nacional.
O que caracteriza a novela das seis
Além da definição de Lopes, um estudo da Universidade Federal de Pernambuco, apresentado na Intercom em 2012, resume que as novelas das 18 horas costumam ser mais românticas, dramáticas e fantasiosas, e que essa faixa, assim como a das sete, não costuma trabalhar o realismo. Na prática, isso aparece em alguns traços que o espectador reconhece:
- Romance no centro: a história de amor costuma conduzir a trama.
- Outras épocas: a temática histórica é frequente, como aponta Lopes.
- Espaço para fantasia: a narrativa admite elementos que fogem do cotidiano.
Isso não quer dizer que a faixa ignore a realidade. O mesmo estudo observa que Cordel Encantado, exibida às 18h em 2011, trazia elementos reais, com o sofrimento do sertanejo e referências ao coronelismo, dentro de uma história com tom de fantasia.
Uma faixa pensada para a casa
O estudo pernambucano cita uma entrevista do roteirista Doc Comparato, de 1985, reproduzida por Mattelart e Mattelart: “A novela das 18h concerne principalmente a um público doméstico, de mulheres e crianças.” A frase é de 1985 e mostra como um roteirista via a faixa naquela época, mas ajuda a entender o perfil que ela construiu.
Mesmo assim, vale conferir a classificação indicativa antes de assistir com crianças. Segundo o Guia Prático do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ela informa pais e responsáveis sobre a idade não recomendada para determinados conteúdos, sem ser censura. E, se a ideia é rever novelas das seis de outras décadas, o texto sobre novelas antigas mostra o que a pesquisa diz sobre reprises e memória.
Para aproveitar a novela das seis
- Se a novela for adaptação, conheça o livro de origem antes ou depois, sem pressa.
- Repare em cenários e figurinos: eles contam parte da história.
- Confira a classificação indicativa se houver crianças na sala.
- Combinem em casa se vale comentar o que cada um acha que vai acontecer.
Para consultar
- Telenovela como recurso comunicativo, Maria Immacolata Vassallo de Lopes (MATRIZes, USP) ↗
- Telenovela: o gênero de maior sucesso da televisão brasileira, Soraia Rodrigues Costa (Portcom, Intercom) ↗
- Adaptação de obras literárias para a televisão (Intercom Sudeste, 2009) ↗
- Telenovelas e interpretações do Brasil, Esther Hamburger (Lua Nova, SciELO) ↗
- Representação social do gago na telenovela, UFPE (Intercom Nordeste, 2012) ↗
- Ministério da Justiça e Segurança Pública: Guia Prático de Classificação Indicativa, 5ª edição (2025) ↗
Redação HELP TV PLAYER
Entretenimento e tecnologia para a sua tela. Curiosidade para descobrir histórias e clareza para aproveitar melhor.
Conheça o portal ↗Algo neste conteúdo precisa de revisão?
Sugerir uma correção ↗